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January 29 Mãos Dadas Carlos Drummond de Andrade
Não serei o poeta de um mundo caduco. Também não cantarei o mundo futuro. Estou preso à vida e olho meus companheiros Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças. Entre eles, considere a enorme realidade. O presente é tão grande, não nos afastemos. Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas. Não serei o cantor de uma mulher, de uma história. Não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista na janela. Não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida. Não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins. O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente. Oração de são Francisco de Assis Senhor! Fazei de mim um instrumento da vossa paz. Onde houver ódio, que eu leve o amor. Onde houver ofensa, que eu leve o perdão. Onde houver discórdia, que eu leve a união. Onde houver dúvidas, que eu leve a fé. Onde houver erro, que eu leve a verdade. Onde houver desespero, que eu leve a esperança. Onde houver tristeza, que eu leve a alegria. Onde houver trevas, que eu leve a luz. Ó Mestre, fazei que eu procure mais: consolar, que ser consolado; compreender, que ser compreendido; amar, que ser amado. Pois é dando que se recebe. É perdoando que se é perdoado. E é morrendo que se vive para a vida eterna. AMEM" January 20 Poema à boca fechada Não direi: Que o silêncio me sufoca e amordaça. Calado estou, calado ficarei, Pois que a língua que falo é de outra raça. Palavras consumidas se acumulam, Se represam, cisterna de águas mortas, Ácidas mágoas em limos transformadas, Vaza de fundo em que há raízes tortas. Não direi: Que nem sequer o esforço de as dizer merecem, Palavras que não digam quanto sei Neste retiro em que me não conhecem. Nem só lodos se arrastam, nem só lamas, Nem só animais bóiam, mortos, medos, Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam No negro poço de onde sobem dedos. Só direi, Crispadamente recolhido e mudo, Que quem se cala quando me calei Não poderá morrer sem dizer tudo. Saramago (In OS POEMAS POSSÍVEIS, Editorial CAMINHO, Lisboa, 1981. 3ª edição) November 04 Sem ti E de súbito desaba o silêncio. É um silêncio sem ti, sem álamos, sem lua. Só nas minhas mãos oiço a música das tuas. Eugenio de Andrade November 02 | Ser, Ter, Amar – Thiago de Mello
(…) Permaneço, contudo, e comigo a amargura, quando o amor é o caminho que em mim se faz e faz-me correr ao campo branco onde alvoradas sonham, onde me espera o pasto onde a fome fareja a dor antiga, eterna: dor esplêndida e dura - dor de ser e de amar. Porque de amar, perdura. E trago dessa viagem uma treva mais doce para a noite do mundo. (…) | October 15 | QUEM Fábia Salles Quem Não quer Ser só Deve Não Nascer | | | | Salvador Dalí. Figure at a Window. 1925. Oil on canvas. 102 x 75 cm. Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofia, Madrid, Spain. | October 04 QUE FIQUE CLARO E LÍMPIDO: ESTE TEXTO FOI ESCRITO PELA FAL AZEVEDO E ESTÁ DISPONÍVEL NA COLUNA DELA NO IG http://colunistas.ig.com.br/palavrasdafal/ ERCÍLIA Houve um primeiro café. Houve? Na verdade, estava tudo tão confuso que Ercília não tem mesmo certeza se houve café aquela noite, no meio de tantas vozes e daquele monte de sorrisos. Mas, enfim, houve um depois. Houve um depois porque Carmelo escreveu. E ligou. E mandou recados. E escreveu de novo. E insistiu. E insistiu. E insistiu. Ercília ficou lisonjeada. Ercília ficou lisonjeada e uma luzinha de reconhecimento acesa lá no fundo da cabeça dela, ela ignorou. Ela escolheu ignorar, porque a vida é muito curta e blábláblá, e ela não tinha nada a perder, e blábláblá, e parecia tudo bem, e blábláblá. Fazia tanto tempo. Tanto tempo. Ela respondeu educadamente. E, de novo, ela respondeu educadamente. Até que um dia, feliz e meio abobada, ela respondeu. Sem educação. Com graça, feliz. E respondeu de novo e mais uma vez. E mais uma vez. E recebeu uma resposta de Carmelo dizendo que não era bem assim e que ele estava com problemas de conexão, e pessoais, e de saúde, e de cabeça, e de coração, e na bolsa de valores, e nos…. E, então, Ercília lembrou que aquela luzinha já havia acendido outras vezes. Mas fazia tanto tempo. Fazia tanto tempo. -------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- Após ler o texto eu pergunto: Por que as pessoas insistem pra entrar e depois vão embora sem nem dar tchau? September 30 Eu vi essas muralhas ruírem Eugenio de Andrade
Eu vi essas muralhas ruírem sobre o rio — eram calmas as águas de setembro, e sucessivas. Despedia-me das folhas, também eu preparava esse abandono da cidade e das suas almas. Eu vi essas muralhas. Eram espessas broncas frias. Ruíram, quando as olhava. Ah como eu queria ver também! September 29
Edgar Degas, O Bebedor de Absinto
Tão possível reconhecer meu próprio olhar nestes olhos de Degas... A aprendizagem amarga
Thiago de Mello
Chega um dia em que o dia se termina
antes que a noite caia inteiramente.
Chega um dia em que a mão, já no caminho,
de repente se esquece do gesto.
Chega um dia em que a lenha não chega
para acender o fogo da lareira.
Chega um dia em que o amor, que era infinito,
de repente se acaba, de repente.
Força é saber amar, perto e distante,
com o encanto de rosa livre na haste,
para que o amor ferido não acabe
na eternidade amarga de um instante.
September 13 “ Procuro despir-me do que aprendi Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram, E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos, Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras, Desembrulhar-me e ser eu... ” Alberto Caeiro September 12  | (…) “Vida, casa encantada, onde eu moro e mora em mim, te quero assim verdadeira cheirando a manga e jasmim” (…) Thiago de Mello | September 02
"The days are high And the nights are deep and I can feel it moving in me and nothing's like it used to be With you - with me"
August 11 http://abowman.com Neste site você encontra este ramster. Esperimente clicar nele, você poderá alimentá-lo e interagir com o bichinho virtual. Just for fun!
August 03 THAT PARTICULAR TIME my foundation was rocked my tried and true way to deal was to vanish my departures were old I stood in the room shaking in my boots at that particular time love had challenged me to stay at that particular moment I knew not run away again that particular month I was ready to investigate with you at that particular time we thought a break would be good for four months we sat and vacillated we thought a small time apart would clear up the doubts that were abounding at that particular time love encouraged me to wait at that particular moment it helped me to be patient that particular month we needed time to marinate in what "us" meant I've always wanted for you what you've wanted for yourself and yet I wanted to save us high water or hell and I kept on ignoring the ambivalence you felt and in the meantime I lost myself in the meantime I lost myself I'm sorry I lost myself... I am you knew you needed more time time spent alone with no distraction you felt you needed to fly solo and high to define what you wanted at that particular love encouraged me to leave at that particular moment I knew staying with you meant deserting me that particular month was harder than you'd believe but I still left at that particular time | Surdo, Subterrâneo Rio Surdo, subterrâneo rio de palavras me corre lento pelo corpo todo; amor sem margens onde a lua rompe e nimba de luar o próprio lodo. Correr do tempo ou só rumor do frio onde o amor se perde e a razão de amar --- surdo, subterrâneo, impiedoso rio, para onde vais, sem eu poder ficar?
Eugenio de Andrade | Adeus Já gastámos as palavras pela rua, meu amor, e o que nos ficou não chega para afastar o frio de quatro paredes. Gastámos tudo menos o silêncio. Gastámos os olhos com o sal das lágrimas, gastámos as mão à força de as apertarmos, gastámos o relógio e as pedras das esquinas em esperas inúteis. Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada. Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro! Era como se todas as coisas fossem minhas: quanto mais te dava mais tinha para te dar. Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes! e eu acreditava. Acreditava, porque ao teu lado todas as coisas eram possíveis. Mas isso era no tempo dos segredos, no tempo em que o teu corpo era um aquário, no tempo em que os meus olhos eram peixes verdes. Hoje são apenas os meus olhos. É pouco, mas é verdade, uns olhos como todos os outros. Já gastámos as palavras. Quando agora digo: meu amor..., já se não passa absolutamente nada. E no entanto, antes das palavras gastas, tenho a certeza de que todas as coisas estremeciam só de murmurar o teu nome no silêncio do meu coração. Não temos já nada para dar. Dentro de ti não há nada que me peça água. O passado é inútil como um trapo. E já te disse: as palavras estão gastas. Adeus. Eugénio de Andrade |
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